







Pata quebrada com gesso liso apresenta-se como uma instalação da artista Dalila Gonçalves, propositadamente concebida para o espaço de projetos Anexo, da Galeria Marli Matsumoto, em São Paulo.
Nesta sua intervenção, a artista dispõe um conjunto de moedas impressas em gesso, revestindo a totalidade do espaço expositivo. Envolvendo as paredes com uma nova camada, branca, frágil e provisória, a artista cria um espaço de imersão e convida-nos ao lento encontro daquilo que nele se inscreve.
As imagens, que nos mostram animais dos quatro cantos do mundo, são veladas pelo gesso, mas afirmadas pela textura e pelo recorte das sombras, inerentes à profundidade com que as moedas se enterram na superfície. Com atenção, percebemos uma ordem na composição que dispõe todos os animais que habitam o mar e as suas profundezas para junto do pavimento, todos os animais que se passeiam na terra para junto do nosso corpo, e todos os animais que esvoaçam no céu para a parte superior da sala, junto ao teto.
As moedas, que antes obedeciam à lógica de um valor financeiro e à resistência de um uso quotidiano, ganham agora nova presença, como figuras fantasmáticas escondidas por debaixo de um material quebradiço. A dicotomia entre o que elas eram e aquilo que agora são, dita também a transformação de uma ideia de valor, antes associada à troca, por algo que destaca a composição, a descoberta e a beleza.
De forma subtil, com cuidado e lentidão, a obra convida-nos a um gesto de procura, desvelando elementos que se organizam de modo silencioso, como numa gravura seca (a branco sobre branco), por camadas, entre as sombras. A dimensão táctil que a obra detém, na relação direta entre a figura a matéria e a luz, traz à memória a expressão de um baixo-relevo, mas também a evocação poética de antigas figuras rupestres, descobertas na penumbra, na adjacência do corpo e do olhar.
Dir-se-ia que, num campo de marcas contínuas, num exercício de arqueologia visual, a parede ensaia uma paisagem simbólica e uma cartografia coletiva em que os animais se revelam na proximidade, por aparição. Na totalidade dessa nova camada de gesso, na descoberta das figuras que aí se acolhem, a obra ensaia um novo território. Um território de sobreposições, composto por seres de diferentes geografias, que não surge como coisa fixa, mas antes como algo em construção.
Algo que, delicadamente, ensaia um exercício de contiguidade, abertura e descoberta.
Sérgio Fazenda Rodrigues