Irracional

Frederico Filippi

Uma nova biologia emerge por meio de formas inclassificáveis. Entre a geometria ideal e o derretimento industrial, surgem abstrações que reconfiguram nossa percepção do real — os aparelhos sensoriais e cognitivos com os quais compomos a imagem do mundo e, por consequência, de nós mesmos. Essas aparições queimam a retina e gravam na mente como signo dos novos tempos: índices da tecnologia avançada e da ação antropogênica em escala planetária. No entanto, ao contrário do que almeja o projeto humano desde o Neolítico, menos indicam a separação e a subjugação da natureza do que revelam seu aspecto indomável e estranho, bem como a indissociabilidade entre nós e aquilo que nos cerca.

Em Irracional, Frederico Filippi reúne diferentes grupos de trabalhos em que o acaso, o descontrole e o gesto errático operam como motores de criação. O artista dá sequência àquilo que está no cerne de sua produção desde o princípio: o estudo de fenômenos — muitas vezes ocultos ou inexplicáveis — que habitam os enlaces entre a natureza e a ação humana, aos quais busca dar forma, tateando as linguagens que emergem diante dos limites do absurdo e do estranhamento. Justaposições, hibridismos e acoplagens são recorrentes; o atrito, a colisão e outras ocorrências violentas tornam-se ferramentas conceituais para reelaborar criticamente o imaginário social do Brasil e da América do Sul sob as marcas do capitalismo tardio. Emerge, assim, um pensamento ecossistêmico do assombro e da amálgama, que vai ao encontro do desconhecido e não separa o ser humano do meio ambiente, o orgânico do maquinal, o físico do digital.

Na série Uma cabeça dentro da outra (2026), objetos de madeira esculpidos a partir de modelos digitais funcionam, a um só tempo, como esculturas indefinidas pairando no espaço e apiários reais, que abrigam abelhas vivas. Essas peças nascem de um processo de extrusão de uma geometria reta original corrompida de modo aleatório — uma forma idealizada, portanto, e que só se materializa por meio do corte feito por uma máquina. Essa arquitetura especulativa, gerada por código, entra em tensão com a arquitetura animal da colmeia. De um lado, a imprecisão artificial da forma exterior; de outro, a inteligência orgânica do enxame. Uma terceira camada de acaso ainda se soma: o comportamento imprevisível das próprias abelhas no campo expositivo. As pinturas da série Notas perecíveis (2026) trazem colagens feitas com ilustrações científicas, elementos da história da arte e recortes banais retirados de materiais cotidianos. Esses elementos são recolhidos e sobrepostos aleatoriamente, sem hierarquia — como se o próprio repertório visual já estivesse contaminado pela desordem. Sobre essas imagens é aplicada uma camada de látex, remetendo a estratos arqueológicos de um passado do futuro. Por fim, uma mancha negra de piche avança pela superfície como uma forma de vida viscosa e simbiótica, cuja expressão parece anunciar que logo tudo estará tomado por essa substância. Em Arco (2011-), série contínua, o artista investiga e flexiona o conceito de ”arco do desmatamento” — como é chamada a fronteira do extermínio que avança sobre a Floresta Amazônica. Essa pesquisa, ligada à sua dissertação de mestrado, traz registros fotográficos que documentam a realização de arcos com materiais diversos e em diferentes contextos. Na exposição, duas imagens mostram o mesmo gesto em paisagens radicalmente distintas: numa, uma árvore é torcida pela tração de um fio, criando uma flexão arbitrária em meio à floresta; noutra, a carcaça de um carro é serrada ao meio formando um arco em um cemitério de automóveis. Aqui, a brutalidade da economia extrativista e a catástrofe da desflorestação são convertidas em gesto escultórico mínimo e reproduzível, de modo a conferir algum grau de iconografia a um hiperobjeto¹  que excede a compreensão humana direta.

Completam a exposição as Bandeiras (2026), peças readymade feitas com fragmentos de tratores incinerados pela Polícia Federal em operações contra garimpos ilegais. Esses objetos são dispostos como aparições espectrais, tornando-se tanto figuras disformes produzidas ao acaso quanto provas materiais da destruição ambiental e da irracionalidade que mobiliza a cadeia de ação e repressão dessas práticas. São iconografias do desmanche e derretimento como situação permanente do século XXI, assim como encerram uma dinâmica generativa: novas formas, texturas e cores incorporadas à natureza, dando à luz outra condição biológica. Em todos os trabalhos, prevalece a recusa do cálculo e da racionalidade científica em favor de uma ininteligibilidade produtiva. A viscosidade aparece como elemento central: é matéria — mel, látex, piche e plástico derretido —, mas também contorno de um modo de pensar e fazer, algo entre o líquido e o sólido que se espalha sem fixar forma definitiva, moldando tanto a especulação mental do artista quanto a linguagem de cada obra. Essa viscosidade sugere ainda um emaranhamento ecológico: a ideia de uma teia de relações intrínsecas sem fim nem começo. Nesse sentido, o artista não cede à facilidade dos pensamentos binários, tampouco aponta o dedo à maneira de certa militância, preferindo encarar os acontecimentos correntes como parte de uma rede intrincada da qual o ser humano faz parte — e na qual tanto age quanto é agido, mais subjugado do que subjugador. Diante de forças que escapam ao nosso controle e da vastidão insondável ao nosso redor, restam a angústia e o desespero, mas também o fascínio e a doçura do encantamento, obrigando-nos a questionamentos éticos sobre nossa relação com o mundo. Entre o encontrado e o fabricado, o orgânico e o digital, a vitalidade e a aniquilação, sobram perguntas sem respostas fáceis, mas que invariavelmente demandam um senso de propósito diante do caos, princípio definidor do universo e fundamento inerente da experiência humana.

 

Germano Dushá

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1 Conceito cunhado pelo filósofo Timothy Morton para nomear fenômenos complexos e dinâmicos que se estendem por escalas de tempo e espaço tão vastas que não podem ser compreendidos em sua totalidade, ainda que estejamos sempre “grudados” a eles e sendo influenciados por seus efeitos. A ideia de emaranhamento ecológico retomada mais adiante no texto parte do mesmo pensamento filosófico, para o qual toda existência opera num inescapável sistema de interdependência radical.